Oi! Feliz Dia das Mães com #boaleitura e #boapoesia!
Pequenina
És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!
O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!
Florbela Espanca
Quem acompanha o blog já deve ter lido a poesia que escrevi de Florbela Espanca no dia 25 de abril e quem ainda não leu, se quiser, clique aqui .Fiquei devendo para vocês as minhas impressões sobre todo o livro e chegou o dia de pagar a minha dívida! rs... :)
O livro Sonetos de Florbela Espanca foi publicado pela Editora Martin Claret Ltda em 2002 e esse que comprei baratinho em um sebo, como descrevi no outro post, foi a 1º reimpressão, do ano de 2009. A edição inclui, na verdade, todos os sonetos publicados em quatro obras da poetisa: o Livro de Mágoas (1919), Livro de Soror Saudade (1923); Charneca em Flor (1930) e Reliquiae (1931). E no início do livro tem um texto bem legal contando o Perfil biográfico de Florbela Espanca, no qual pude conhecer a história de vida da escritora e me deparar com as alegrias e tristezas (bem mais dessa segunda opção) de sua trajetória - transmitidas em seus sonetos de maneira forte, marcante. Também me entristeci com a morte de Florbela...
Angústia
Tortura de pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -
O brilho duma estrela, com o vento!...
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: "O que te resta?"...
Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
Florbela Espanca
Vou confessar que li esse livro devagar quase parando. As poesias são ótimas, mas bastante carregadas de tristeza. Isso acabava me fazendo ter que parar algumas vezes; para tomar ar, fôlego. Só depois dessas paradas estratégicas conseguia submergir novamente nesse mundo de angústia, dor, amor... Bem, na verdade, quando eu mesma estava mais cabisbaixa a leitura fluía rápido, como se eu estivesse lendo o que minha alma chorava. Ou quando me deparava com momentos do livro em que as poesias enalteciam o amor, aí também era bem fácil de ler.
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém
Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...
Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...
Florbela Espanca
Os assuntos da Florbela são de um eu lírico de coração mergulhado nas paixões da vida; por vezes completamente enamorado, por vezes desiludido com o amor. A alma atormentada de uma mulher que tenta se encontrar entre a vida tempestuosa e as palavras escritas dão luz aos sonetos mais "à flor da pele" que já li até hoje. Indico tais poesias para aqueles momentos nos quais estamos nós mesmos tentando nos encontrar em meio aos ventos de tristeza que às vezes nos sopram... Ou aos ventos de paixão que às vezes nos dominam...






