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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Manoel de Barros

VII

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxúria convém.

Manoel de Barros.


Manoel de Barros: #boapoesia

domingo, 7 de setembro de 2014

Poema em linha reta - Fernando Pessoa

Oi!
Hoje vou deixar aqui uma poesia do meu amado Fernando Pessoa ; em verso escrito e em vídeo...
Se não me engano, essa cena aconteceu em uma novela da Globo...
Vale muito a pena assistir, gente... o ator deu um show!
Espero que gostem!! :)  #boapoesia





Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?



Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


E, para falar sobre... não sei... por vezes também me pergunto: "Onde é que há gente no mundo?"

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

bem no fundo - Paulo Leminski

Oi!
Vamos curtir um pouco de poesia? :)
#boapoesia


bem no fundo

     no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
     a gente gostaria
de ver nossos problemas
     resolvidos por decreto

     a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
     é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo

     extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar para trás,
     lá para trás não há nada,
e nada mais

     mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
     e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
     e outros pequenos probleminhas

Paulo Leminski

E aí, pessoal, gostaram?
Essa poesia caiu como uma luva para os meus pensamentos do dia... nenhum outro texto poderia me ajudar mais hoje. Estava justamente pensando que quanto mais a gente cresce e principalmente, quando se torna um adulto responsável de vez e caí no mundo, os problemas que nem imaginávamos existir batem na porta.
Antes mesmo de pegar esse livro para ler um pouco e sem lembrar desse texto em específico, estava pensando com meus botões: por que tem de ser tão difícil? por que a lei não pode ser mais simples, fácil e decretar o fim desses problemas? por que temos de resolver pendências que estão ficando para trás?
E, aí, me deparei com o Leminski: "a gente gostaria/ de ver nossos problemas /resolvidos por decreto".
Diria que esse poeta estava ouvindo meus pensamentos e sua alma veio me apontar essa página... rs!
Sem brincadeiras, sei bem que os problemas devem ser resolvidos logo ou viram bolas de neve nos acertando em cheio. Sei bem que o melhor é encarar e fazer o necessário: o que tem de ser solucionado precisa de uma solução. Não há como fugir. E fugir só aumenta a questão. 
Mas, lá no fundo, passa sim pela cabeça esse desejo de resolver tudo de forma mais simples, com uma lei, né? Impossível negar. Porém, como lembra o poeta, não é tão fácil assim: "problemas têm família grande". Apenas um decreto não poderia conter essa prole toda suplicando por atenção.
Paulo Leminski, obrigada! Essas palavras me confortaram, agora já encaro melhor "aquela mágoa sem remédio".

domingo, 20 de julho de 2014

Neologismo - Manuel Bandeira

Oi!
Hoje vou propor a leitura de um poema do grande Manuel Bandeira!
#boapoesia



Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teadora.

Manuel Bandeira

E aí, gostaram?
Para quem não se lembra muito bem, Neologismo é a criação de uma palavra ou expressão nova. 
Manuel Bandeira inventa a palavra "Teadorar" em sua poesia para expor uma ternura mais funda, como diz o poema. 
Na prática, esse eu lírico revela que não faz muitas ações concretas que indiquem carinho; usando pouco de beijos e palavras faladas. Mas, para demonstrar a ternura que existe em seu ser, costuma criar novas palavras.

E eu estava aqui pensando com meus botões: muitas vezes usamos da arte - escrita, cantada, esculpida, etc - para expressar sentimentos que de outra maneira não conseguiríamos. Acredito que através de um poema, um texto ou um quadro, por exemplo, podemos traduzir o que de mais fundo e cotidiano existe dentro de nós. 

A nossa alma necessita da invenção de mais palavras, cores e texturas para transitar no mundo. Viva a arte! 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Jardim Interior - Mario Quintana

Oi!
Hoje a natureza está me inspirando...
#boapoesia


Jardim Interior 

Todos os jardins deviam ser fechados, 
Com altos muros de um cinza muito pálido, 
onde uma fonte 
pudesse cantar 
sozinha 
entre o vermelho dos cravos. 
O que mata um jardim não é mesmo 
alguma ausência 
nem o abandono... 
O que mata um jardim é esse olhar vazio 
de quem por eles passa indiferente. 

Mario Quintana


Tenho usado essa rosa de modelo para muitas fotos minhas do Instagram. Isso porque a flor realmente me perece ser a mais bonita do mundo... e por ser a mais bonita do mundo que está na minha casa! Ou eu a considero a mais bonita do mundo por ser minha e por estar cativada? E, aqui, não posso deixar de lembrar do livro O Pequeno Príncipe: "Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante."

A verdade é que amo essa rosa e a mesma me fez ir buscar um livro do Mario Quintana - o A cor do invisível - para reler a poesia que deixei nesse post.
Acontece que tem dias que a seguinte mensagem me aparece de súbito na cabeça: acho que o homem deveria enxergar a natureza.
Não sei se me faço entender, mas eu realmente me sinto mais viva e feliz quando estou admirando a beleza das árvores, flores, campos, etc... A própria humanidade é pura natureza!
Por que parece que tentamos nos livrar dos jardins? Sufocá-los de concreto cinza? Ou simplesmente ignorá-los em nosso cotidiano?

Se existem coisas belas no mundo, são as naturais. São as nuvens, a Lua, a copa das árvores, as flores, o verde da grama, etc, etc, etc...
Mas, como nos lembra Quintana - 
"O que mata um jardim é esse olhar vazio 
de quem por eles passa indiferente."
Estamos matando jardins da mesma forma que muitas vezes matamos a beleza natural em nós.
Talvez estejamos esquecidos que somos parte disso - o que é mágico! Embora também nos deixe a ideia de que somos tão importantes quanto "o vermelho dos cravos".
Ou talvez seja esse o motivo: não queremos nos equiparar, o homem deseja ser mais especial que isso.
Felizmente, somos parte desse todo ao qual colocamos o nome de natureza. Somos tudo isso.

E é lindo. Vamos enxergar? 
Quem sabe enxergar e admirar um jardim novo no bairro?
Quem sabe enxergar e admirar o que somos - nosso Jardim Interior?

Não sei se viajei demais nessa resenha de uma poesia, mas cabe a cada um decidir: o que pretende olhar e o que pretende passar indiferente.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Argumento - Adélia Prado

Oi!
Em homenagem ao Dia dos Namorados, hoje vou postar uma poesia que fala de namorados...rs
Com humor, claro, porque Adélia Prado não é poetisa de poema óbvio!
Adélia Prado é poetisa de poemas inteligentes, acima de tudo!
#boapoesia


Argumento

Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi para casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.

Adélia Prado

E aí, galera, gostaram? Eu lírico safadinho esse, hein? rs... Mas, piadas a parte, será mesmo que escolhemos ficar junto das pessoas que se parecem conosco? Tanto nas qualidades quanto nos defeitos, será que escolhemos uma pessoa através de um inconsciente buscando se identificar com outro tão igual? Ou é o caso apenas desse eu lírico de Adélia, que tinha várias opções, mas escolheu aquele que mais parecia sustentar sua imperfeição através de outra grosseria, como cuspir no chão?
Ou as nossas escolhas românticas estão para além de um argumento consciente? rsrsrs...
Chega, Lu, chega! Por hoje é só! Vou deixar as perguntas de lado e viver!
Feliz Dia dos Namorados!!! :)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Casaco - Manoel de Barros

Oi!
Gente, essa semana merece uma poesia de um dos meus poetas preferidos ou talvez o preferido mesmo...
Manoel de Barros, poeta das inutilidades mais úteis que minha alma já experimentou!!
#boapoesia


O CASACO

Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado
e sujo.
Tentou sair da angústia
Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no
lixo.
Ele queria amanhecer.

Manoel de Barros

Vocês já leram Manoel de Barros? O cara é tão bom que me deu vontade de escrever todas as poesias dele aqui nesse post... Mas, vou guardar meu estoque para o futuro também...rs
Todas as poesias de Manoel nos dão a possibilidade de perceber as coisas do mundo de uma outra forma. Esse escritor consegue dar outros significados para angústia através das palavras. 
"Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no 
lixo.
Ele queria amanhecer."
Passar pela noite é essencial para que outro dia apareça em nós. Tanto assim é com a angústia. 
O casaco rasgado e sujo precisa ser admitido como tal e sentido dessa forma para causar a angústia que faz tirá-lo e jogar no lixo. Assim o ser se renova em novo amanhecer. 
Manoel de Barros é um gênio; sou muito fã e super indico.
Obrigada, Manoel! :)

domingo, 11 de maio de 2014

Sonetos - Florbela Espanca

Oi! Feliz Dia das Mães com #boaleitura e #boapoesia

Pequenina

És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!

Florbela Espanca

Quem acompanha o blog já deve ter lido a poesia que escrevi de Florbela Espanca no dia 25 de abril e quem ainda não leu, se quiser, clique aqui .Fiquei devendo para vocês as minhas impressões sobre todo o livro e chegou o dia de pagar a minha dívida! rs... :)


O livro Sonetos de Florbela Espanca foi publicado pela Editora Martin Claret Ltda em 2002 e esse que comprei baratinho em um sebo, como descrevi no outro post, foi a 1º reimpressão, do ano de 2009. A edição inclui, na verdade, todos os sonetos publicados em quatro obras da poetisa: o Livro de Mágoas (1919), Livro de Soror Saudade (1923); Charneca em Flor (1930) e Reliquiae (1931). E no início do livro tem um texto bem legal contando o Perfil biográfico de Florbela Espanca, no qual pude conhecer a história de vida da escritora e me deparar com as alegrias e tristezas (bem mais dessa segunda opção) de sua trajetória - transmitidas em seus sonetos de maneira forte, marcante. Também me entristeci com a morte de Florbela... 

Angústia

Tortura de pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -
O brilho duma estrela, com o vento!...

E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: "O que te resta?"...

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Florbela Espanca

Vou confessar que li esse livro devagar quase parando. As poesias são ótimas, mas bastante carregadas de tristeza. Isso acabava me fazendo ter que parar algumas vezes; para tomar ar, fôlego. Só depois dessas paradas estratégicas conseguia submergir novamente nesse mundo de angústia, dor, amor... Bem, na verdade, quando eu mesma estava mais cabisbaixa a leitura fluía rápido, como se eu estivesse lendo o que minha alma chorava. Ou quando me deparava com momentos do livro em que as poesias enalteciam o amor, aí também era bem fácil de ler.

Minha culpa

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

Florbela Espanca

Os assuntos da Florbela são de um eu lírico de coração mergulhado nas paixões da vida; por vezes completamente enamorado, por vezes desiludido com o amor. A alma atormentada de uma mulher que tenta se encontrar entre a vida tempestuosa e as palavras escritas dão luz aos sonetos mais "à flor da pele" que já li até hoje. Indico tais poesias para aqueles momentos nos quais estamos nós mesmos tentando nos encontrar em meio aos ventos de tristeza que às vezes nos sopram... Ou aos ventos de paixão que às vezes nos dominam...

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Perdoe-me tanto laquê - Juliana Gervason

Oi! 
Hoje vou escrever sobre o livro de uma poetisa contemporânea! 

#boaleitura #boapoesia


O livro Perdoe-me tanto laquê, foi escrito pela Juliana Gervason do blog O batom de Clarice. Conheci o blog e o livro através da resenha do Cheirando Livros. E gostaria de agradecer pela existência desses dois blogs, que fazem um trabalho de qualidade nesse mundo da discussão literária virtual.

O livro da Juliana é ótimo! Nele me identifiquei com a maioria das poesias e li super rapidinho, quase como se estivesse conversando comigo mesma... É muito bom encontrar uma poetisa de tanto talento e sensibilidade no mercado brasileiro atual. 

Nos versos desse livro, podemos deparar com questões próprias da vida de nossos tempos. Encontrei, nas palavras de Juliana, mais um refúgio para essa angústia inerente ao existir; tal como encontrei em outros grandes poetas que venho indicando aos poucos aqui no blog. 


Além disso, foi muito bom ter a oportunidade de comprar o livro com a própria escritora, que foi super carinhosa com a minha encomenda e escreveu dedicatória, recadinho com beijo do Theo e arrumou tudo com o maior cuidado para mim. Muito obrigada, Juliana! :)


da vida

eu precisei ir para poder voltar. e voltei tarde, porque o retorno foi rápido
não saí tanto de mim quanto eu achava ter saído
dois passos talvez.
voltei três passos, para constar, para me assegurar que se sair de novo, tenho a 
proteção que me salva.

eu voltei para o meu já. que era, antes, esse agora que nunca
voltava.

dois passos apenas.

mas como eu fiquei longe de casa.


e de mim.

Juliana Gervason



das relações humanas

a gente às vezes tem que tomar cuidado
e evitar uma entrega completa
pois da entrega completa podemos voltar incompletos
faltando até para nós mesmos.

Juliana Gervason


das questões

quando deixamos de ser o que somos,
e descobrimos que o que somos não é o que queremos,
nos tornamos nós?

Juliana Gervason


Gostaria de acrescentar mais um pedido: Juliana, por favor, escreva mais. Porque esse livro só me deixou com mais vontade de ler outras poesias suas... Portanto, se for possível, atenda ao meu apelo e faça outros livros, com ainda mais poemas. Vou adorar! :)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A nossa casa - Florbela Espanca

Oi! 
Hoje vou com a poesia da mais nova aquisição da minha estante, achado em um sebo ótimo! :)
#boapoesia


Sim, é um livro de Sonetos da Florbela Espanca! E quanto custou? Apenas R$ 4,50!!!!! :)
Tinha prometido para mim mesma não comprar mais nenhum livro esse mês, mas... Fui lendo e lendo, vi o preço, não resisti... 
Ainda não o li todo, mas em homenagem ao livro mais barato (e com muita qualidade, hein...) que comprei até hoje, a poesia será dela: Florbela Espanca!

A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

Florbela Espanca

Florbela foi uma poetisa portuguesa, nascida em 1894, cuja vida conturbada serviu de inspiração para versos lindos; cheios de feminilidade, liberdade e erotismo. Nesse poema aqui do post, acredito que muito dessas três características destacadas se revelam. Foi difícil escolher apenas um só para hoje, talvez quando eu terminar de ler todo o livro acabe fazendo uma resenha detalhada e com mais poesias! Mas, esse foi um dos que mais gostei até agora (dentre os outros vários também preferidos...rs...). Quando o leio, sinto a emoção de um casal de namorados que sonha com sua união, sua própria casa... E ainda mais importante: um casal que deseja morar dentro de si, residindo nesse amor de corpo e alma. Será que viajei muito? rs...

Enfim, penso no poema como uma das formas de expressão artística que mais conversa com nosso alma. Seja o que for que estivermos sentindo, alguma poesia pode ser lida (ou escrita, que tal?) para nos acolher nesse momento. Por isso também indico Florbela Espanca! :)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

XLVIII - Soneto de Amor - Pablo Neruda

Oi!
Hoje é dia de poesia! Essa é uma das que mais gosto do Pablo Neruda, que está no meu livrinho antigo, o Cem Sonetos de Amor... #boapoesia


XLVIII

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.

De todas as verdades escolheram o dia:
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.

O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
tem direito a todos os cravos.

Dois amantes felizes não tem fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
tem da natureza a eternidade.

Pablo Neruda


Neruda é um poeta chileno conhecido internacionalmente, inclusive personagem do famoso filme O Carteiro e o Poeta. Para deixar claro a dimensão desse reconhecimento, também posso citar: o escritor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. 
Quando leio seus versos de amor, me sinto acolhida e envolvida em verdadeiros sentimentos. Sinto o que essa poesia diz; enquanto penso: "Dois amantes felizes não tem fim nem morte"... Um casal é eternidade, é uma unidade... "deixam andando duas sombras que se reúnem"... não se perdem um no outro, procuram buscar a paz... "não se ataram com fios senão com um aroma"... vão vivendo a vida com carinho e recomeços... "a noite lhes oferta suas ditosas pétalas", "nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem"...
A poesia de Neruda transborda sentimento; como um abraço amoroso, um beijo apaixonado, um caminhar lado a lado. Indico! :)

domingo, 13 de abril de 2014

Bicarbonato de Soda - Fernando Pessoa

OI!
Hoje vou inaugurar um espaço novo... só para falar de poesia...
Mas não de um livro e sim de apenas uma poesia.
Pretendo continuar resenhando livros de poesia, mas também gostaria de deixar aqui alguns momentos para que uma única poesia possa ser lida inteira. E, assim, deixá-la por si só como fonte de todo o pensamento que a alma couber... Enfim, não sei se me fiz entender, mas vamos lá...
#boapoesia


Bicarbonato de Soda

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

Fernando Pessoa


Essa poesia é de um dos meus poetas favoritos, o Fernando Pessoa...
Quando a leio, parece que minha angústia se encontra com a dele e nos perguntamos: cabe a nós tomar um chopp ou solicitar a morte?
Cabe existir e suportar a existência, encontrar a angústia, se deixar envolver pelos versos de Pessoa enquanto encaramos nós mesmos, aqui dentro, tentando as palavras ou artifícios para ajudar com essa náusea de viver.
Nem sempre é fácil existir. Mas com poesia é mais cheio de alma; é mais cheio de si.
Leia Bicarbonato de Soda sempre que a pressão for grande: tome um minuto de poesia, super recomendo! :)